sexta-feira, 19 de maio de 2006

Os políticos brasileiros mudaram; o Brasil não

A entrevista do governador de São Paulo, do PFL, criticando a maldade da burguesia paulista - que reclama da violência e da situação do Brasil enquanto degusta uma dose de conhaque a R$ 900 - é um choque de difícil recuperação para uma expatriada há seis anos fora do País.

O PFL reclamar da burguesia não se encaixa na lembrança do que é o Brasil e a política brasileira. Esse discurso não teria que ser do PT? Não, o PT no governo não diz mais essas coisas, é isso? E o PSDB, que tem a social democracia no nome? Também não, o candidato não é aquele que a mulher teria recebido 400 vestidos para uma obra de caridade nunca registrada e que disse que o PCC estava acabado?

Será que os políticos brasileiros mudaram ou são diferentes as expectativas de quem em poucos anos fora se acostumou a ver os governantes assumirem as responsabilidades inerentes às funções que ocupam?

As bombas do atentado de 7 de julho de 2005 em Londres mataram 52 pessoas, mas em poucas horas, antes mesmo que fosse possível contar os mortos, o primeiro-ministro e o prefeito foram à TV prestar contas à sociedade sobre o que estava sendo feito e o que se podia esperar deles a partir dali.

Na tragédia que vem sendo vivida em São Paulo, pelo menos daqui, pela internet, não se vê as autoridades prestando contas nem assumindo suas responsabilidades. O que se vê é um festival de acusações. Uso eleitoral, falta de educação que deveria ter sido oferecida por governos anteriores, ineficiência do atual governador, herança do que saiu dizendo que o problema estaria resolvido e por aí se vai.

Também deve ser por conta desses anos fora que fica mais clara e mais chocante a percepção da enorme concentração de renda no Brasil. Ao fim de um jantar, a burguesia, como chama o governador pefelista, saboreia doses de conhaque a um preço equivalente a 2,5 vezes o salário mínimo cada uma. Quantos salários mínimos custa o jantar?

Na Grã-Bretanha, 5ª maior economia do mundo, com uma renda per capita de US$ 30,9 mil, os sinais exteriores de riqueza são raros. Poucos têm Rolls Royce, parte do orgulho e tradição do país. Um número menor ainda têm uma Ferrari, mesmo quando o problema não é dinheiro. Não é por medo de assalto. É que aqui, a ostentação do luxo é restrita a alguns poucos exibicionistas do mundo das celebridades e vista até com certo arquear das sombrancelhas e contração do lábio superior.

No "The Fat Duck", o melhor restaurante do país e que tem três estrelas do Michelin, o jantar com vinho sai por 130 libras. Caro, mas equivalente a menos de 25 horas de trabalho de quem ganha salário mínimo na Grã-Bretanha.

Provoca espanto a descoberta de que em alguns países as casas têm dependência de empregada! "Será resquício do apartheid?", perguntava, desistindo do negócio, um casal levado a África do Sul pelo programa de TV que semanalmente ajuda os britânicos a comprarem casas em países ensolarados.

De manhã no metrô viajam pessoas de alto, médio e baixo salário, mas as faixas de renda não são muito óbvias.

O Partido Trabalhista de Tony Blair só chegou ao poder depois que foi para o centro, dizem os críticos. Pode ser, mas o governo é julgado por suas ações em favor do bem comum, como os resultados dos pesados investimentos para recuperar o Sistema Nacional de Saúde ou a educação depois de anos de escassez vivida nos governos conservadores. Talvez porque até mesmo muitos dos que vivem no vértice da pirâmide são atendidos no sistema nacional de saúde e vão às escolas públicas.

Nessa sociedade mais justa, os privilégios da burguesia e da classe média também são menores, se comparados aos usufruidos no Brasil. Mas em compensação, as janelas das casas não têm grades, os adolescentes pegam ônibus para a escola e entre os adultos, ninguém tem medo de uma caminhada a pé depois do jantar.

Maria Luiza Abbott, Terra Magazine