sexta-feira, 30 de junho de 2006

Tecla Sapiens

Ludologia
Ciência que estuda videogames. Há pelo menos 5 anos, mais de 100 universidades americanas promovem pesquisas na área. Não são apenas cursos para criar novos jogos, mas estudos culturais e sociológicos sobre games e seus efeitos.

Torpedo suicida
Nova modalidade de avisos de suicidas. Em vez de escrever bilhetes ou longas cartas se despedindo da família e dos amigos, envia-se uma mensagem de celular em grupo. No ano passado, 23 suicidas britânicos aderiram a essa prática segundos antes de se matarem.

Déjà Vu crônico
É a sensação contínua de ler frases que parecem repetidas ou de já ter vivido alguma cena. O fenômeno está sendo estudado por psicólogos da Universidade de Leeds, Inglaterra. É a sensação contínua de ler frases que parecem repetidas ou de já ter vivido alguma cena. O fenômeno está sendo estudado por psicólogos da Universidade de Leeds, Inglaterra.

in Revista Sapiens

sexta-feira, 23 de junho de 2006

A noite dos sonhos complicada por demais

Finalmente, depois de tanto pedir e tanto combinarmos -- e nunca irmos -- estávamos nós na frente do Grão. Era emoção total! E não é exagero: fazia muito tempo que não comíamos pizza lá. E que pizzas! Não sei se é porque estava morrendo de vontade de grão, ou porque estava com fome, mas aquelas produções culinárias estavam espetaculares. As fritas, as pizzas, a maionese. Tá loco!
Mas nem sempre só de alegrias a vida é feita. Assuntos desagradáveis apareceram sim. Coisas desagradáveis também aconteceram. Mas sem detalhes -- disse que não vou me meter. Complicações e complicações amorosas, financeiras (é a partilha dos pedaços, hahahah) e qualquer outro tipo.
Mas pelo menos matei minha vontade. Ainda tô feliz!

domingo, 18 de junho de 2006

Dois filmes pra levar qualquer um ao cinema mais próximo (do seu mouse)



Como aqui em Serafina não tem cinema, e também fica muito difícil sair daqui para ver algum grande filme em suas primeiras semanas, com comentários, análises e notícias a mil, restou recorrer a um modo menos convencional de cinema. Sou contra a pirataria, mas de vez em quando esta é uma regalia que poucas pessoas sabem aproveitar. Eu, por exemplo, aproveitei muito bem ao conseguir na internet as três grandes produções cinematográficas que estrearam em maio: Missão: Impossível III, O Código Da Vinci e X-Men: O Confronto Final. Filmes que foram capa de revista, matéria no Fantástico, principal assuntos de críticos de cinema, revistas científicas e tablóides sensacionalistas.
O filme produzido pelo já famigerado Tom Cruise, e dirigido pelo mesmo homem que dá vida a Lost, J. J. Abrams, M:I3 só veio parar no meu computador por impulso, aquela adrenalina "vou pegar um filme na net". Permanece aqui e ainda nem assisti.Já "O Código..." e X3, confesso, corri atrás e estava muito ansioso. E não é a toa.
Dos três que falei, o primeiro que assisti foi o último capítulo da trilogia mutante. Quantas palavras para descrever o filme de Ratner? Uma: ótimo. Como diz Pablo Villaça em uma análise no site Cinema em Cena: "O Confronto Final segue de perto a linha bem-sucedida de seus antecessores, utilizando a saga dos mutantes não apenas como desculpa para cenas de ação, mas também para estabelecer uma inteligente alegoria sobre a própria sociedade em que vivemos". Muito bem escrito, num ritmo certo -- nem muito devagar, sendo chato; nem muito rápido, sendo confuso -- X3 sobreviveu às trocas de diretores e pressões da Fox e chegou cheio de graça. Não deveria, mas me obrigo a contar: mortes e mortes. Quem for assistir, prepare-se para ver Scott (Ciclope), Professor Xavier e Jean Grey morrendo.
Contendo alguns dos momentos mais dramáticos da trilogia (e inquestionavelmente os mais trágicos), X-Men: O Confronto Final é um longa que se mostra corajoso ao romper com nossas expectativas sobre o destino de cada personagem, preocupando-se apenas em ser coerente com os caminhos tomados pela trama. Impactante desde o início, o filme retoma a discussão sobre preconceito ao exibir, já em seus primeiros minutos, um menino que tenta desesperadamente arrancar do próprio corpo os sinais de sua mutação - e quando é finalmente surpreendido pelo pai, a reação deste nem sequer se aproxima da compreensão ou mesmo da piedade: “Você, não!”, o sujeito lamenta, com um misto de dor e repulsa. Com isso, a série volta a estabelecer um paralelo óbvio entre mutantes e integrantes de qualquer minoria discriminada no mundo real, o que, como já apontei, é um dos atributos mais fascinantes da franquia.

Mas não é só: como todo bom exemplar de ficção-científica, X-Men 3 busca sempre mergulhar na lógica de seu próprio universo, desenvolvendo (no mínimo, propondo) discussões éticas e filosóficas a partir das possibilidades proporcionadas pelo conceito de mutação: seria correto, por exemplo, transferir a mente de um indivíduo à beira da morte para o corpo saudável de uma pessoa intelectualmente incapaz? Ainda que perguntas como esta não tenham conseqüências práticas em nosso mundo (ao menos, não por enquanto), a própria Filosofia desenvolveu-se a partir de discussões que, muitas vezes, eram estritamente hipotéticas, mesmo absurdas – e é nossa capacidade de divagar sobre problemas como estes que nos torna capazes de atacar questões de natureza mais palpável. Além disso, quando mutantes como Vampira se sentem tentados pela possibilidade de uma “cura”, o espectador é levado a considerar a necessidade que todos sentimos de sermos “aceitos” por nossos pares. A pergunta é: até que ponto estamos dispostos a abrir mão daquilo que nos faz únicos a fim de nos “encaixarmos”? O que é a praga do “politicamente correto” senão uma tentativa - possivelmente danosa a longo prazo - de tentar nos forçar a ignorar as diferenças naturais entre indivíduos, raças, credos etc?

Conselho: assistam! X-Men: O Confronto Final está esplêndido, muito bom mesmo. Pena que agora vem um longo intervalo até que uma outra possível produção desse tipo chegue às telas. Certo já está um filme solo sobre Wolwerine, com ninguém mais ninguém menos que o próprio Hugh Jackman. Mas é simplesmente ele, sem grupos ou escolas.
Saindo de uma produção claramente fictícia e indo para outra também fantasiosa, porém polêmica, que deixou a Igreja Católica de cabelo em pé, O Código Da Vinci foi uma experiência esquisita. Antes do lançamento em Cannes, eu estava doido para assistir. Daí vieram os primeiros comentários, a crítica odiou e eu realmente me convenci que Tom Hanks ninguém merece mesmo. Eu estava esperando muito do filme, e pelo que diziam, o filme era bem menos do que eu pensava. Ele já estava no meu PC e somente ontem assisti, exatamente um mês depois de sua estréia. Cabeça já fria, comentários já nem apareciam mais na internet (imprensa, ahá, que nojo), a Lela já tinha me dito que o filme foi uma decepção, mas eu não estava pensando em nada disso. Na verdade, já estava crente que não ia ver um X-Men 3. Não sei por que, mas ele superou minhas expectativas. Na verdade, não acredito que eu entenda muito de cinema então, mas estava esperando algo exageradamente ruim, talvez por isso tenha sido mais ou menos. Ou talvez porque já era tarde e tinha um pouco de sono, me desprendendo dos detalhes que fazem diferença e esquecendo que o protagonista é o Tom Hanks.
A verdade seja dita, o filme é mesmo ruim. Num ritmo muito acelerado que acabou tornando-se confuso. Ainda bem que já havia lido a obra e sabia a história, assim não fiquei perdido, mas garanto que alguém "leigo" viaje totalmente.
Do ponto de vista estilístico, Dan Brown não é dos melhores escritores: seu texto é desajeitado, repetitivo e pouco elegante. No entanto, seu sucesso editorial não é de todo injusto, já que ele certamente tem talento para conceber tramas intrigantes (mesmo que inverossímeis) e estruturas narrativas rápidas que mantém o leitor sempre curioso para saber o que acontecerá no capítulo seguinte. Assim, ainda que descartável, seu livro O Código Da Vinci (assim como Anjos e Demônios) funciona como um passatempo agradável – e não teria passado desta categoria caso não tivesse despertado a ira de imbecis fundamentalistas que, sempre em busca de uma boa polêmica que lhes traga exposição na mídia, auxiliaram na divulgação justamente de um texto que deveriam ter todo o interesse em enterrar. Com isso, O Código Da Vinci se transformou em fenômeno, embora não tenha sido nem a primeira nem a melhor obra a abordar os temas considerados tabus pela Igreja.

Infelizmente, em vez de escalar um roteirista talentoso que fosse capaz de reconhecer as pedras preciosas espalhadas no texto de Brown e descartar o lixo, o cineasta Ron Howard, responsável por esta adaptação para o Cinema, decidiu convidar o picareta Akiva Goldsman para a tarefa, entregando ao autor de Batman & Robin e A Luta pela Esperança (o último e desastroso filme do diretor) a tarefa de condensar um livro repleto de informações em um roteiro de pouco mais de 120 páginas. O resultado é o esperado: O Código Da Vinci revela-se uma produção prolixa e confusa que provavelmente representará um desafio particular para os pobres espectadores que entrarem na sala de projeção sem algum conhecimento prévio do material original. Atiradas de forma quase aleatória ao longo da projeção, as idéias de Brown soam confusas e frágeis, já que Goldsman não se preocupa sequer em amarrar as pontas soltas de sua adaptação, criando buracos que não existiam no livro e, portanto, enfraquecem o filme (como Sophie Neveu (Tautou) descobriu que deveria ir ao Louvre, no início da história?). E, ainda que acerte ao simplificar certos elementos (como ignorar o segundo críptex), o roteirista mantém diversas passagens que deveriam ter sido descartadas já no primeiro tratamento, como a boba conversa entre Langdon (Hanks) e Sir Leigh (McKellen) através do interfone – minutos preciosos que poderiam ter sido investidos em outras áreas da história.

Sem saber direito como lidar com um roteiro tão carregado de diálogos, o diretor Ron Howard procura compensar o falatório com as seqüências de ação pontuais, mas até mesmo estas se revelam burocráticas e pouco imaginativas, limitando-se às velhas perseguições de carro e a tiros que passam raspando pelas cabeças dos heróis. Em alguns momentos, o desespero do cineasta para conferir alguma agilidade às longas cenas de exposição chega a despertar pena: observem, por exemplo, como Tom Hanks se levanta durante uma conversa e vai até o canto da sala sem razão alguma a não ser permitir que algum movimento ocorra na tela. Em contrapartida, Howard acerta ao reutilizar alguns dos truques visuais que empregara em Uma Mente Brilhante para ilustrar o raciocínio e as explicações de seu protagonista, como ao destacar letras em uma frase ou ao acrescentar figuras do passado no fundo do quadro.
Nota final: 7 (e acho que fui generoso). Superou minhas expectativas sim, mas ainda é ruim -- tu tem alguam idéia de como eu tava pensando que fosse? Hahaha. Mas vale a pena, pois até tem algumas mensagens interessantes. No início, por exemplo, quando Langdon está dando uma palestra sobre símbolos ele destava a idéia de que certas idéias a respeito algumas coisas são extremamente diferentes do que nossos antepassados pensavam. Para isso projeta-se ao fundo imagens do tridente de Poseidon, além do símbolo nazista que num giro de 45º era usado em estátuas egípcias. E outra parte que me agradou foi quando Langdon disse alguma coisa do tipo "o que importa é o que você acredita". Realmente, não importa se Jesus foi casado ou solteiro, o que importa é que acreditamos que ele existiu e foi um grande homem. É uma questão de fé. Disso a Igreja Católica poderia ter tirado um proveito muito maior. Vale a pena assistir porque foi um filme muito comentado, mas não se deixe levar.

terça-feira, 13 de junho de 2006

Fátima e Galvão: o Jornal Nacional está em Berlim

-SILÊNCIO!!!

A ordem de Galvão Bueno, seguida por três palmas dele mesmo, cala a todos.
Eles e elas são uma centena. Estão há horas à porta do Bristol Hotel Kempinski Berlim, onde a seleção amarela se hospeda. Uma da madrugada na Alemanha, oito da noite no Brasil.Vai começar o Jornal Nacional.

Os amarelos estacionados na calçada não esperam a seleção amarela, que a essa hora já dorme para a estréia de logo mais. Eles esperam pela Fátima. Pela Globo.

Não sabiam que ganhariam também o Galvão.

Ainda falta uma hora para começar o JN. Fátima não está. Mas o câmera está. E a câmera está ligada. Não transmite, mas está lá, enquadrando a centena de amarelos. Eles sorriem, fazem coros, gritam slogans para a câmera que nada transmite.

Wanderlei Edelercy Imin é o câmera, 30 anos de Globo. Além do seu crachá, Edelercy carrega no pescoço também a credencial Fifa de, assim está escrito, Fátima Bonner. Edelercy apenas guarda o documento. Mas já é o suficiente. Todos o procuram. Todos querem saber de Fátima.

Edelercy sabe da sua responsabilidade, e dá mostras de tanto nos diálogos que mantém por uma hora.
-Como ela é?
-Muito boa gente...
-O marido é legal?
-É...
-E como estão as crianças?
-Estão bem...
-Será que elas não sentem falta da mãe?

Roger, o do Corinthians, passa, entra no hotel. Ninguém dá a menor pelota.

Wanderley Nogueira, da Jovem Pan, TV Gazeta, Terra, sobe as escadas do hotel. Os gritos se espalham:
-Wanderley, Wanderley, Wanderley....

Wanderley jantou e caminhou a pé até o hotel. Mas não sabe quantos passos deu. Seu pedômetro foi esmigalhado. Com ele, Wanderley marcava os 10 mil passos que deve dar a cada dia. O pedômetro se foi em Köningstein.

Rumo à batalha no curralzinho de Darwin - onde nossa espécie, a mídia isenta, imparcial e objetiva, luta pela sobrevivência - o pedômetro caiu. Antes que Wanderley esboçasse uma reação, o medidor de passos foi estraçalhado pelas rodas do caminhão da Coca-Cola.

E agora Wanderley adentra o Kempinski, em odor de glória:
-Wanderley, Wanderley...

Edelercy segue em sua missão:
-Fiquem tranqüilos, as crianças (as da Fátima) estão bem.

Frenesi. Surge a Fátima.

Fátima está de terninho azul claro. Galvão, de blazer azul marinho. A centena de coadjuvantes, quase todos eles, de verde-amarelo. Um garoto está de branco.

O garoto amargará por sua escolha.

- SILÊNCIO!!!

Galvão, novamente, comanda os amarelos.

Fátima pede:
-Façam silêncio, por favor, enquanto estivermos gravando o Jornal Nacional. Depois mostraremos vocês no final.

-Eeeehhhhh!!! – comemora a multidão, mãos abanando em direção à câmera, olhos voltados para a câmera.

Um senhor aplaude. Sua camisa, amarela, informa:
-Taguatinga. DF. Amo minha esposa. Joana D'Arc.

Sim, Joana D'Arc é o nome da esposa. O dele está assinado na camiseta: Augustinho Guiotti.

Galvão bate palmas, pede atenção. Em tempo; estão todos, Fátima, Galvão e coadjuvantes, entre as escadarias e a calçada do hotel. Galvão:
-Vocês podem falar agora, mas silêncio quando começar o Jornal Nacional. Aí ninguém fala mais nada...

Uma centena de brasileiros, jovens, idosos, homens, mulheres, se cala ante a determinação de Galvão Bueno.

Até que um deles grita:
-Seu Galvão!

Galvão, de pé na escada, vira-se em direção à voz:
-Sim?
-Tá emocionado, hein? Tá suando...

-Eeeehhhh!!! – berra e gargalha a multidão. Que cresce.

Fátima, para Edelercy, ou para quem está na escuta:
-Meu ponto tá na esquerda ou na direita?

Estava no ouvido à direita.

Galvão também está com ponto.

À direita.

Fátima repassa nas páginas o roteiro do telejornal:
-...Cinco, Japão e Austrália; Vinte e Seis, Tino Marcos...Berlim, véspera da estréia...

Galvão desce as escadas. Sussurra ao ouvido, esquerdo, de Fátima. Ela se vira para o garoto de camisa branca, mas é Galvão quem diz:
-Assim não dá, Guaraná Antarctica? Olha, eu vou te pedir um favor...

O garoto se assusta, não compreende, até seguir as mãos de Galvão apontadas para seu peito, abaixar o rosto e perceber o que está estampado: "Guaraná Antarctica".

-Tira, tira, tira – gritam os amarelos.

O garoto tira a camisa. Fica de torso nu.

-Não dá – avisa o câmera, ou alguém atrás dele.

O garoto veste a camisa pelo avesso.

-XIIIIUUUUUU!!!!!

Galvão pede silêncio.

A moça, na escada, logo atrás de Fátima Bernardes, deixa escapar:
-Ai, eu nem acredito que tô aqui...

Fátima se vira:
-Não vai chorar, hein? Pelo amor de Deus...

Fátima comenta com amarelos:
-O Ronaldo acha que vai ser 3 a 1, para o Brasil...

Um grito, autoria desconhecida:
-Ótima Bernardes...

Uma luz na multidão. Galvão se vira para os amarelos estacionados na calçada do hotel e determina:

-Sem flash!

Murmúrios. Galvão move os lábios e ordena:

-XIIIIIUUUUU...

Fez-se o silêncio.

Intervalo. Recomeça a transmissão. Silêncio absoluto, rompido apenas por um ruído. Ainda que absolutamente humano, inadequado, o ruído, quando irrupção de adultos em público.

O alarido pós-ruído se foi, instala-se novamente o silêncio. Até que alguém detecta o rastro do ruído. E anuncia, com pungente indignação:

-Nooosssaa! Salva a alma, mermão, que o corpo já foi!

De fato.

Pedro Bial se aproxima. Chama Galvão Bueno. Aproxima-se e conta:
-O Brasil vai jogar de meias azuis, a Croácia de brancas..
-Eu sabia, falei com o Schroder..
-....Nike.....
-É, Bial, mas isso eu não posso falar aqui...

Segue o Jornal Nacional. A cada vez que Fátima entra no ar, a multidão ao fundo se agacha, se contorce, se acocora. Gestos secundados pelo silêncio. Todos em busca do enquadramento.

O Jornal vai chegar ao fim. Último bloco. Fátima comenta com a multidão:
-O jornal passa rápido quando a gente está em casa...
-Quando é com você, Fátima – responde alguém.

-EEEEEHHHH....entoam os amarelos. Fátima sorri. Alguém grita:
-Você também é bão, Galvão....

-EEEHHH – entoam novamente os amarelos.

Silêncio. Fátima está no ar. Os amarelos acenam, se contorcem diante das câmeras. Em silêncio absoluto.
.
Fim. Galvão Bueno avisa à platéia:
-Acabou!!!

O garoto do Guaraná Antártica, o que teve que virar a camisa pelo avesso, rompe o silêncio:
-Posso respirar?

Gargalhadas.

Fátima é cercada. Celulares, fotos. Câmeras, fotos, Galvão é cercado. Fotos. Celulares. Fotos...

Bob Fernandes, em Terra Magazine

quarta-feira, 7 de junho de 2006

Diversidade temática



Hoje começo a escrever ao som de O Rappa, mas na verdade é desde que começou a tocar Paralamas que estou a navegar em busca de assuntos para hoje. Depois de toda aquela revolta apresentada ante-ontem (hahaha, ANTE-ontem), quero mais alegria, apesar das cenas de vandalismo que vimos na TV, onde integrantes do MLST destruiram parte da Câmara dos Deputados -- mas depois falamos disso.
Começar pela foto de hoje: a mais nova celebridade-que-nem-sabe-que-é-celebridade. A filha do casal mais badalado do cinema nos últimos anos, Angelina Jolie e Brad Pitt. Eu sei que este é um assunto superficial, digno das revistas de fofoca que tanto odeio e dos sites de personalidades sensacionalistas. Mas escrevo porque com certeza ainda tem gente que não viu a comentada foto da menina Shiloh Nouvel com seus pais. A seguinte foto foi comprada pela revista People (do grupo Time Warner) por cerca de 4 milhões de dólares, e até ontem a notícia que corria pela internet é que a revista britânica Hello! (também da Warner) havia negociado o preço da foto pela mesma bagatela. Hoje as coisas já estão diferentes, até a versão: Revista quer reparação por perder foto exclusiva de bebê de Pitt e Jolie é a manchete nos sites de notícias. Refere-se ao fato da foto que devia ser exclusiva da Hello! ter vazado na internet e ter ido parar em milhares de sites (inclusive este), praticamente desvalorizando a imagem ("Especialistas disseram que o direito de publicar a foto no mundo todo poderia custar algo entre 5 milhões e 7 milhões de dólares.") e estragar a grande cartada da edição. Bom, o que interessa mesmo nessa história toda é a boa intenção do casal Pitt-Jolie em doar todo o dinheiro arrecadado com a ânsia pelas fotos para o Unicef, órgão da ONU. Palmas para eles, esta é uma atitude muito admirável.
Mudando de assunto, que outra coisa lamentável que ocorreu em nosso país. O ataque do MLST à Câmara dos Deputados foi algo nojento, irritante. Quando vi as imagens na TV fiquei fervendo de raiva. Por que esses desocupados não vão trabalhar uma vez na vida, ao invés de ficar destruindo patrimônio público, que sem dúvida faz parte da história do nosso país? O PT está provando do próprio veneno; isso era antigamente atitude de quem agora está na cabeça. O mundo dá voltas, sem dúvida. E quanto a esses vândalos, têm mesmo é que ir pro xilindró, cadeia mesmo; vandalismo é crime!
Agora basta!
"As grades do condomínio são pra trazer proteção, mas também trazem a dúvida se não é você quem tá nessa prisão."
Até quando vamos fechar os olhos?
"É pela paz que eu não quero seguir admitindo."

segunda-feira, 5 de junho de 2006

Faces de violência para começar a semana

Ninguém imaginava que hoje, segunda, poderia ser um dia tão supreendedor. Bem, talvez esta não seja a palavra certa, mas foi difícil de acreditar no que aconteceu em Casca hoje mais cedo. Um assalto digno, sim, de reportagem na TV; e um desfecho lamentável. Bandidos, armados, assaltaram duas agências bancárias na cidade: Banco do Brasil e Caixa. Estavam preparados, com tudo planejado nos mínimos detalhes, e com um armamento para a polícia passar vergonha. Isso não foi nada comparado à morte do tenente Oscar, que trabalhou aqui em Serafina nos últimos anos. É esquisito pensar que aquele cara que já sentou do meu lado em jantas na cidade agora está morto. E que dor a família deve estar sentindo. Ele nem estava em serviço, mas sempre zelou pela segurança pública.
Fora do nosso mundinho, outra morte. Essa não "abalou" muita gente conhecida, mas eu sim. O guitarrista do Detonautas, Rodrigo Netto, morreu assassinado dentro do seu carro, no Rio de Janeiro, em uma tentativa de assalto. Artistas nunca foram da nossa realidade, mas sempre estão na nossa cabeça como pessoas de certa forma iluminadas, aparentemente longe de qualquer mal. Ilusão. Mais uma pessoa foi vítima da violência.
Pena é que vamos piscar os olhos de novo, e vamos lamentar de novo quando algo assim acontecer de novo. E de novo as coisas continuarão assim. De novo pessoas morrerão. E de novo virá aquele sentimento de impotência para com os problemas sociais. Não conhecia bem nenhum dos dois, mas doeu saber dos acontecimentos.
Não é hora de fechar os olhos, e vamos educar bem nossas crianças.

domingo, 4 de junho de 2006

Ironias ideológicas na viagem espacial brasileira

A viagem recente do astronauta Marcos Pontes à Estação Espacial Internacional foi repleta de simbolismos. O primeiro deles, a do primeiro brasileiro no espaço. O segundo, acontecer cem anos depois do vôo histórico do avião 14 Bis, de Alberto Santos Dumont. Tanto que a missão chamou-se exatamente "Centenário".

Estes foram os mais óbvios, explorados à exaustão pela imprensa brasileira. Mas, até onde pude notar, outros simbolismos menos sutis passaram desapercebidos ou foram deixados de lado.

Pois o astronauta brasileiro subiu aos céus em uma nave russa, a Soyuz, em companhia de um russo e de um americano. O que tem demais isso? Deixe-me clarificar a afirmação em termos históricos e políticos. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, Estados Unidos e União Soviética competiram em todos os setores de atividade pela supremacia mundial. Em termos políticos, econômicos, militares, científicos, tecnológicos e até esportivos. Um corolário da nomeação do período de Guerra Fria, foi a tal da "corrida espacial". Julgava-se, então, quase de forma ingênua, que quem liderasse a tecnologia de foguetes e satélites poderia dominar o espaço aéreo do inimigo.

Em 1957 os soviéticos saíram na frente e lançaram o satélite Sputnik. Os americanos penaram para engrenar, mas já no início dos anos 60 também lançavam seus foguetes e satélites. O soviético Yuri Gagarin e o americano John Glenn são os primeiros heróis a levarem a bandeira ideológica da suposta igualdade soviética e da liberdade americana ao cosmos. E Neil Armstrong pisando na Lua em 1969, para além do fantástico feito em si, serviu de propaganda inevitável da supremacia tecnológica do Ocidente.

Pois em meio a esta efervescência, o Brasil cria a Agência Espacial Brasileira em 1960. Sempre com pouquíssimos recursos humanos e verbas, mas teimosamente sinalizando uma importante opção estratégica do Estado - assim como fez também com o desenvolvimento da tecnologia nuclear, outra marca indelével dos anos 60.

Pois embora estas duas frentes tenham sido parte ainda de governos democráticos, tanto o programa espacial quanto a tecnologia nuclear ganharam impulso a partir da liderança das Forças Armadas. A partir do Golpe de Estado de 1964, o desenvolvimento destes pólos de afirmação do poderio técnico-científico do país esteve principalmente a reboque de interesses militares e ideológicos. Estavam até dentro de um projeto expansionista megalômano e nada inocente: "O Brasil Potência". E, obviamente, com clara opção de alinhamento ao "lado americano da corrida".

Mas o que acontece neste início de século 21? Um astronauta brasileiro, por coincidência um militar, finalmente vai ao espaço em uma nave dos inimigos ideológicos de outrora! E mais: sob a administração federal liderada por um partido de esquerda, o Partido dos Trabalhadores, criado por sindicalistas, religiosos e intelectuais perseguidos e torturados pelos militares, durante os 20 anos de ditadura.

Alguém poderá dizer que eram outros tempos, que isso não tem mais nada a ver. O Muro de Berlim - símbolo do maniqueísmo ideológico -, caiu, o próprio "império do mal" implodiu, estamos em plena era de globalização e decadência de grandes visões de mundo excludentes. Temos a liderança unipolar dos americanos, ainda que sob o desafio insidioso do terrorismo em escala internacional. Sim, não nego que estes bons argumentos, que são até mais do que isso, são fatos. Mas os fatos trazem causas por trás de si e podem - e devem - ser interpretados.

Marcos Pontes ficou de 1998 a 2005 em treinamento na Nasa - a famosa agência espacial americana. Começou, então, durante a administração federal do "tucano" Fernando Henrique Cardoso - outro opositor da ditadura, mais moderado. Filho de general, inclusive. Lula foi eleito e assumiu a Presidência em 2003 e houve o trágico acidente com o ônibus espacial Columbia logo a seguir. E desde então, os russos passaram a comandar todas as viagens de suprimentos e tripulações para a Estação.

É apenas coincidência que o astronauta brasileiro chegue ao espaço sob um governo de esquerda? Isso porque o fato do PT estar no poder pode ter aproximado os entendimentos do governo brasileiro com o russo. Afinal, boa parte dos petistas era simpático à causa socialista. Alguém poderá dizer que o governo russo atual não tem nada do regime soviético. Em termos econômicos e institucionais não, mas o governo de Vladimir Putin tem uma clara feição autocrática e centralizadora à moda da prática soviética anterior. Isso sem falar que Putin foi o chefe da KGB, ainda nos estertores do finado regime dos sovietes.

Se Marcos Pontes não subisse agora, talvez não subisse mais. Porque o Brasil não vem cumprindo os prazos para a construção de equipamentos a serem enviados à Estação Espacial, conforme consta em seu contrato de adesão à sociedade dos países participantes. Ou então, se cumprisse a sua parte, teríamos de esperar até 2009 ou 2010 para realizarmos este sonho espacial.

Não é sem sentido defender que o militar Pontes subiu numa nave russa Soyuz - uma das jóias da tecnologia espacial soviética -, por causa das antigas afinidades ideológicas do atual presidente e seu partido com a Rússia, que herdou a maior parte da estrutura do que restou do antigo império socialista.

Se quiserem mais uma pitada simbólica: por incrível coincidência, na noite da subida de Marcos Pontes onde estava o presidente Lula? Na embaixada da China, a outra potência socialista de um tempo nem tão distante assim.

O que pensariam os militares linha-dura do período autoritário (Costa e Silva, Médici, Frota) se soubessem que um piloto da Força Aérea iria ao espaço no início do século 21 numa nave dos "comunas"? De fato, "a vida dá muitas voltas", "a Terra é redonda", e "as verdades nunca são absolutas". Sentenças do senso comum, é verdade.

Em todo caso, é importante ter a História sempre em mente, pois as afinidades e origens, mesmo que distantes e não-óbvias, podem vir a se manifestar em determinado contexto e situação. Assim sendo, torna-se igualmente importante adotarmos uma perspectiva contemporânea pluralista, destituída de preconceitos, e principalmente, no caso, do ponto de vista político-ideológico, cujo cenário anterior foi dos mais radicais, mas com efeitos ainda discerníveis. Marcos Pontes e todos aqueles que vêem em sua missão efeitos positivos para a Ciência e a Educação brasileira num futuro próximo, agradecem.

Marcello Simão Branco, Terra Magazine

quinta-feira, 1 de junho de 2006

Eu também me vidrei no pôr-do-sol do Guaíba


Quando ouvia e via grandes elogios ao final de tarde porto-alegrense, principalmente quando se está na beira do lago Guaíba, não tinha muita idéia do tamanho e beleza deste fato comum. Comum em qualquer lugar, menos em Porto Alegre. Ontem, quando estava passeando num ônibus panorâmico para conhecer os pontos turísticos da cidade, fiquei maravilhado com aquela visão -- tanto que fiz muitas fotos e até vídeo, dos quais uma clicada está aqui.
É uma harmonia tão perfeita de cores que simplesmente não conseguia desviar o olhar. Não tinha palavras. Não pensava em nada. Só olhava. E entendi por que esse acontecimento diário é tão famoso. Aquilo me fez muito bem.
Hoje, por outro lado, várias coisas me fizeram mal, o trabalho de matemática por exemplo. Uma coisa me fez muito bem, e como fez!