domingo, 18 de junho de 2006

Dois filmes pra levar qualquer um ao cinema mais próximo (do seu mouse)



Como aqui em Serafina não tem cinema, e também fica muito difícil sair daqui para ver algum grande filme em suas primeiras semanas, com comentários, análises e notícias a mil, restou recorrer a um modo menos convencional de cinema. Sou contra a pirataria, mas de vez em quando esta é uma regalia que poucas pessoas sabem aproveitar. Eu, por exemplo, aproveitei muito bem ao conseguir na internet as três grandes produções cinematográficas que estrearam em maio: Missão: Impossível III, O Código Da Vinci e X-Men: O Confronto Final. Filmes que foram capa de revista, matéria no Fantástico, principal assuntos de críticos de cinema, revistas científicas e tablóides sensacionalistas.
O filme produzido pelo já famigerado Tom Cruise, e dirigido pelo mesmo homem que dá vida a Lost, J. J. Abrams, M:I3 só veio parar no meu computador por impulso, aquela adrenalina "vou pegar um filme na net". Permanece aqui e ainda nem assisti.Já "O Código..." e X3, confesso, corri atrás e estava muito ansioso. E não é a toa.
Dos três que falei, o primeiro que assisti foi o último capítulo da trilogia mutante. Quantas palavras para descrever o filme de Ratner? Uma: ótimo. Como diz Pablo Villaça em uma análise no site Cinema em Cena: "O Confronto Final segue de perto a linha bem-sucedida de seus antecessores, utilizando a saga dos mutantes não apenas como desculpa para cenas de ação, mas também para estabelecer uma inteligente alegoria sobre a própria sociedade em que vivemos". Muito bem escrito, num ritmo certo -- nem muito devagar, sendo chato; nem muito rápido, sendo confuso -- X3 sobreviveu às trocas de diretores e pressões da Fox e chegou cheio de graça. Não deveria, mas me obrigo a contar: mortes e mortes. Quem for assistir, prepare-se para ver Scott (Ciclope), Professor Xavier e Jean Grey morrendo.
Contendo alguns dos momentos mais dramáticos da trilogia (e inquestionavelmente os mais trágicos), X-Men: O Confronto Final é um longa que se mostra corajoso ao romper com nossas expectativas sobre o destino de cada personagem, preocupando-se apenas em ser coerente com os caminhos tomados pela trama. Impactante desde o início, o filme retoma a discussão sobre preconceito ao exibir, já em seus primeiros minutos, um menino que tenta desesperadamente arrancar do próprio corpo os sinais de sua mutação - e quando é finalmente surpreendido pelo pai, a reação deste nem sequer se aproxima da compreensão ou mesmo da piedade: “Você, não!”, o sujeito lamenta, com um misto de dor e repulsa. Com isso, a série volta a estabelecer um paralelo óbvio entre mutantes e integrantes de qualquer minoria discriminada no mundo real, o que, como já apontei, é um dos atributos mais fascinantes da franquia.

Mas não é só: como todo bom exemplar de ficção-científica, X-Men 3 busca sempre mergulhar na lógica de seu próprio universo, desenvolvendo (no mínimo, propondo) discussões éticas e filosóficas a partir das possibilidades proporcionadas pelo conceito de mutação: seria correto, por exemplo, transferir a mente de um indivíduo à beira da morte para o corpo saudável de uma pessoa intelectualmente incapaz? Ainda que perguntas como esta não tenham conseqüências práticas em nosso mundo (ao menos, não por enquanto), a própria Filosofia desenvolveu-se a partir de discussões que, muitas vezes, eram estritamente hipotéticas, mesmo absurdas – e é nossa capacidade de divagar sobre problemas como estes que nos torna capazes de atacar questões de natureza mais palpável. Além disso, quando mutantes como Vampira se sentem tentados pela possibilidade de uma “cura”, o espectador é levado a considerar a necessidade que todos sentimos de sermos “aceitos” por nossos pares. A pergunta é: até que ponto estamos dispostos a abrir mão daquilo que nos faz únicos a fim de nos “encaixarmos”? O que é a praga do “politicamente correto” senão uma tentativa - possivelmente danosa a longo prazo - de tentar nos forçar a ignorar as diferenças naturais entre indivíduos, raças, credos etc?

Conselho: assistam! X-Men: O Confronto Final está esplêndido, muito bom mesmo. Pena que agora vem um longo intervalo até que uma outra possível produção desse tipo chegue às telas. Certo já está um filme solo sobre Wolwerine, com ninguém mais ninguém menos que o próprio Hugh Jackman. Mas é simplesmente ele, sem grupos ou escolas.
Saindo de uma produção claramente fictícia e indo para outra também fantasiosa, porém polêmica, que deixou a Igreja Católica de cabelo em pé, O Código Da Vinci foi uma experiência esquisita. Antes do lançamento em Cannes, eu estava doido para assistir. Daí vieram os primeiros comentários, a crítica odiou e eu realmente me convenci que Tom Hanks ninguém merece mesmo. Eu estava esperando muito do filme, e pelo que diziam, o filme era bem menos do que eu pensava. Ele já estava no meu PC e somente ontem assisti, exatamente um mês depois de sua estréia. Cabeça já fria, comentários já nem apareciam mais na internet (imprensa, ahá, que nojo), a Lela já tinha me dito que o filme foi uma decepção, mas eu não estava pensando em nada disso. Na verdade, já estava crente que não ia ver um X-Men 3. Não sei por que, mas ele superou minhas expectativas. Na verdade, não acredito que eu entenda muito de cinema então, mas estava esperando algo exageradamente ruim, talvez por isso tenha sido mais ou menos. Ou talvez porque já era tarde e tinha um pouco de sono, me desprendendo dos detalhes que fazem diferença e esquecendo que o protagonista é o Tom Hanks.
A verdade seja dita, o filme é mesmo ruim. Num ritmo muito acelerado que acabou tornando-se confuso. Ainda bem que já havia lido a obra e sabia a história, assim não fiquei perdido, mas garanto que alguém "leigo" viaje totalmente.
Do ponto de vista estilístico, Dan Brown não é dos melhores escritores: seu texto é desajeitado, repetitivo e pouco elegante. No entanto, seu sucesso editorial não é de todo injusto, já que ele certamente tem talento para conceber tramas intrigantes (mesmo que inverossímeis) e estruturas narrativas rápidas que mantém o leitor sempre curioso para saber o que acontecerá no capítulo seguinte. Assim, ainda que descartável, seu livro O Código Da Vinci (assim como Anjos e Demônios) funciona como um passatempo agradável – e não teria passado desta categoria caso não tivesse despertado a ira de imbecis fundamentalistas que, sempre em busca de uma boa polêmica que lhes traga exposição na mídia, auxiliaram na divulgação justamente de um texto que deveriam ter todo o interesse em enterrar. Com isso, O Código Da Vinci se transformou em fenômeno, embora não tenha sido nem a primeira nem a melhor obra a abordar os temas considerados tabus pela Igreja.

Infelizmente, em vez de escalar um roteirista talentoso que fosse capaz de reconhecer as pedras preciosas espalhadas no texto de Brown e descartar o lixo, o cineasta Ron Howard, responsável por esta adaptação para o Cinema, decidiu convidar o picareta Akiva Goldsman para a tarefa, entregando ao autor de Batman & Robin e A Luta pela Esperança (o último e desastroso filme do diretor) a tarefa de condensar um livro repleto de informações em um roteiro de pouco mais de 120 páginas. O resultado é o esperado: O Código Da Vinci revela-se uma produção prolixa e confusa que provavelmente representará um desafio particular para os pobres espectadores que entrarem na sala de projeção sem algum conhecimento prévio do material original. Atiradas de forma quase aleatória ao longo da projeção, as idéias de Brown soam confusas e frágeis, já que Goldsman não se preocupa sequer em amarrar as pontas soltas de sua adaptação, criando buracos que não existiam no livro e, portanto, enfraquecem o filme (como Sophie Neveu (Tautou) descobriu que deveria ir ao Louvre, no início da história?). E, ainda que acerte ao simplificar certos elementos (como ignorar o segundo críptex), o roteirista mantém diversas passagens que deveriam ter sido descartadas já no primeiro tratamento, como a boba conversa entre Langdon (Hanks) e Sir Leigh (McKellen) através do interfone – minutos preciosos que poderiam ter sido investidos em outras áreas da história.

Sem saber direito como lidar com um roteiro tão carregado de diálogos, o diretor Ron Howard procura compensar o falatório com as seqüências de ação pontuais, mas até mesmo estas se revelam burocráticas e pouco imaginativas, limitando-se às velhas perseguições de carro e a tiros que passam raspando pelas cabeças dos heróis. Em alguns momentos, o desespero do cineasta para conferir alguma agilidade às longas cenas de exposição chega a despertar pena: observem, por exemplo, como Tom Hanks se levanta durante uma conversa e vai até o canto da sala sem razão alguma a não ser permitir que algum movimento ocorra na tela. Em contrapartida, Howard acerta ao reutilizar alguns dos truques visuais que empregara em Uma Mente Brilhante para ilustrar o raciocínio e as explicações de seu protagonista, como ao destacar letras em uma frase ou ao acrescentar figuras do passado no fundo do quadro.
Nota final: 7 (e acho que fui generoso). Superou minhas expectativas sim, mas ainda é ruim -- tu tem alguam idéia de como eu tava pensando que fosse? Hahaha. Mas vale a pena, pois até tem algumas mensagens interessantes. No início, por exemplo, quando Langdon está dando uma palestra sobre símbolos ele destava a idéia de que certas idéias a respeito algumas coisas são extremamente diferentes do que nossos antepassados pensavam. Para isso projeta-se ao fundo imagens do tridente de Poseidon, além do símbolo nazista que num giro de 45º era usado em estátuas egípcias. E outra parte que me agradou foi quando Langdon disse alguma coisa do tipo "o que importa é o que você acredita". Realmente, não importa se Jesus foi casado ou solteiro, o que importa é que acreditamos que ele existiu e foi um grande homem. É uma questão de fé. Disso a Igreja Católica poderia ter tirado um proveito muito maior. Vale a pena assistir porque foi um filme muito comentado, mas não se deixe levar.