terça-feira, 13 de junho de 2006

Fátima e Galvão: o Jornal Nacional está em Berlim

-SILÊNCIO!!!

A ordem de Galvão Bueno, seguida por três palmas dele mesmo, cala a todos.
Eles e elas são uma centena. Estão há horas à porta do Bristol Hotel Kempinski Berlim, onde a seleção amarela se hospeda. Uma da madrugada na Alemanha, oito da noite no Brasil.Vai começar o Jornal Nacional.

Os amarelos estacionados na calçada não esperam a seleção amarela, que a essa hora já dorme para a estréia de logo mais. Eles esperam pela Fátima. Pela Globo.

Não sabiam que ganhariam também o Galvão.

Ainda falta uma hora para começar o JN. Fátima não está. Mas o câmera está. E a câmera está ligada. Não transmite, mas está lá, enquadrando a centena de amarelos. Eles sorriem, fazem coros, gritam slogans para a câmera que nada transmite.

Wanderlei Edelercy Imin é o câmera, 30 anos de Globo. Além do seu crachá, Edelercy carrega no pescoço também a credencial Fifa de, assim está escrito, Fátima Bonner. Edelercy apenas guarda o documento. Mas já é o suficiente. Todos o procuram. Todos querem saber de Fátima.

Edelercy sabe da sua responsabilidade, e dá mostras de tanto nos diálogos que mantém por uma hora.
-Como ela é?
-Muito boa gente...
-O marido é legal?
-É...
-E como estão as crianças?
-Estão bem...
-Será que elas não sentem falta da mãe?

Roger, o do Corinthians, passa, entra no hotel. Ninguém dá a menor pelota.

Wanderley Nogueira, da Jovem Pan, TV Gazeta, Terra, sobe as escadas do hotel. Os gritos se espalham:
-Wanderley, Wanderley, Wanderley....

Wanderley jantou e caminhou a pé até o hotel. Mas não sabe quantos passos deu. Seu pedômetro foi esmigalhado. Com ele, Wanderley marcava os 10 mil passos que deve dar a cada dia. O pedômetro se foi em Köningstein.

Rumo à batalha no curralzinho de Darwin - onde nossa espécie, a mídia isenta, imparcial e objetiva, luta pela sobrevivência - o pedômetro caiu. Antes que Wanderley esboçasse uma reação, o medidor de passos foi estraçalhado pelas rodas do caminhão da Coca-Cola.

E agora Wanderley adentra o Kempinski, em odor de glória:
-Wanderley, Wanderley...

Edelercy segue em sua missão:
-Fiquem tranqüilos, as crianças (as da Fátima) estão bem.

Frenesi. Surge a Fátima.

Fátima está de terninho azul claro. Galvão, de blazer azul marinho. A centena de coadjuvantes, quase todos eles, de verde-amarelo. Um garoto está de branco.

O garoto amargará por sua escolha.

- SILÊNCIO!!!

Galvão, novamente, comanda os amarelos.

Fátima pede:
-Façam silêncio, por favor, enquanto estivermos gravando o Jornal Nacional. Depois mostraremos vocês no final.

-Eeeehhhhh!!! – comemora a multidão, mãos abanando em direção à câmera, olhos voltados para a câmera.

Um senhor aplaude. Sua camisa, amarela, informa:
-Taguatinga. DF. Amo minha esposa. Joana D'Arc.

Sim, Joana D'Arc é o nome da esposa. O dele está assinado na camiseta: Augustinho Guiotti.

Galvão bate palmas, pede atenção. Em tempo; estão todos, Fátima, Galvão e coadjuvantes, entre as escadarias e a calçada do hotel. Galvão:
-Vocês podem falar agora, mas silêncio quando começar o Jornal Nacional. Aí ninguém fala mais nada...

Uma centena de brasileiros, jovens, idosos, homens, mulheres, se cala ante a determinação de Galvão Bueno.

Até que um deles grita:
-Seu Galvão!

Galvão, de pé na escada, vira-se em direção à voz:
-Sim?
-Tá emocionado, hein? Tá suando...

-Eeeehhhh!!! – berra e gargalha a multidão. Que cresce.

Fátima, para Edelercy, ou para quem está na escuta:
-Meu ponto tá na esquerda ou na direita?

Estava no ouvido à direita.

Galvão também está com ponto.

À direita.

Fátima repassa nas páginas o roteiro do telejornal:
-...Cinco, Japão e Austrália; Vinte e Seis, Tino Marcos...Berlim, véspera da estréia...

Galvão desce as escadas. Sussurra ao ouvido, esquerdo, de Fátima. Ela se vira para o garoto de camisa branca, mas é Galvão quem diz:
-Assim não dá, Guaraná Antarctica? Olha, eu vou te pedir um favor...

O garoto se assusta, não compreende, até seguir as mãos de Galvão apontadas para seu peito, abaixar o rosto e perceber o que está estampado: "Guaraná Antarctica".

-Tira, tira, tira – gritam os amarelos.

O garoto tira a camisa. Fica de torso nu.

-Não dá – avisa o câmera, ou alguém atrás dele.

O garoto veste a camisa pelo avesso.

-XIIIIUUUUUU!!!!!

Galvão pede silêncio.

A moça, na escada, logo atrás de Fátima Bernardes, deixa escapar:
-Ai, eu nem acredito que tô aqui...

Fátima se vira:
-Não vai chorar, hein? Pelo amor de Deus...

Fátima comenta com amarelos:
-O Ronaldo acha que vai ser 3 a 1, para o Brasil...

Um grito, autoria desconhecida:
-Ótima Bernardes...

Uma luz na multidão. Galvão se vira para os amarelos estacionados na calçada do hotel e determina:

-Sem flash!

Murmúrios. Galvão move os lábios e ordena:

-XIIIIIUUUUU...

Fez-se o silêncio.

Intervalo. Recomeça a transmissão. Silêncio absoluto, rompido apenas por um ruído. Ainda que absolutamente humano, inadequado, o ruído, quando irrupção de adultos em público.

O alarido pós-ruído se foi, instala-se novamente o silêncio. Até que alguém detecta o rastro do ruído. E anuncia, com pungente indignação:

-Nooosssaa! Salva a alma, mermão, que o corpo já foi!

De fato.

Pedro Bial se aproxima. Chama Galvão Bueno. Aproxima-se e conta:
-O Brasil vai jogar de meias azuis, a Croácia de brancas..
-Eu sabia, falei com o Schroder..
-....Nike.....
-É, Bial, mas isso eu não posso falar aqui...

Segue o Jornal Nacional. A cada vez que Fátima entra no ar, a multidão ao fundo se agacha, se contorce, se acocora. Gestos secundados pelo silêncio. Todos em busca do enquadramento.

O Jornal vai chegar ao fim. Último bloco. Fátima comenta com a multidão:
-O jornal passa rápido quando a gente está em casa...
-Quando é com você, Fátima – responde alguém.

-EEEEEHHHH....entoam os amarelos. Fátima sorri. Alguém grita:
-Você também é bão, Galvão....

-EEEHHH – entoam novamente os amarelos.

Silêncio. Fátima está no ar. Os amarelos acenam, se contorcem diante das câmeras. Em silêncio absoluto.
.
Fim. Galvão Bueno avisa à platéia:
-Acabou!!!

O garoto do Guaraná Antártica, o que teve que virar a camisa pelo avesso, rompe o silêncio:
-Posso respirar?

Gargalhadas.

Fátima é cercada. Celulares, fotos. Câmeras, fotos, Galvão é cercado. Fotos. Celulares. Fotos...

Bob Fernandes, em Terra Magazine