A viagem recente do astronauta Marcos Pontes à Estação Espacial Internacional foi repleta de simbolismos. O primeiro deles, a do primeiro brasileiro no espaço. O segundo, acontecer cem anos depois do vôo histórico do avião 14 Bis, de Alberto Santos Dumont. Tanto que a missão chamou-se exatamente "Centenário".
Estes foram os mais óbvios, explorados à exaustão pela imprensa brasileira. Mas, até onde pude notar, outros simbolismos menos sutis passaram desapercebidos ou foram deixados de lado.
Pois o astronauta brasileiro subiu aos céus em uma nave russa, a Soyuz, em companhia de um russo e de um americano. O que tem demais isso? Deixe-me clarificar a afirmação em termos históricos e políticos. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, Estados Unidos e União Soviética competiram em todos os setores de atividade pela supremacia mundial. Em termos políticos, econômicos, militares, científicos, tecnológicos e até esportivos. Um corolário da nomeação do período de Guerra Fria, foi a tal da "corrida espacial". Julgava-se, então, quase de forma ingênua, que quem liderasse a tecnologia de foguetes e satélites poderia dominar o espaço aéreo do inimigo.
Em 1957 os soviéticos saíram na frente e lançaram o satélite Sputnik. Os americanos penaram para engrenar, mas já no início dos anos 60 também lançavam seus foguetes e satélites. O soviético Yuri Gagarin e o americano John Glenn são os primeiros heróis a levarem a bandeira ideológica da suposta igualdade soviética e da liberdade americana ao cosmos. E Neil Armstrong pisando na Lua em 1969, para além do fantástico feito em si, serviu de propaganda inevitável da supremacia tecnológica do Ocidente.
Pois em meio a esta efervescência, o Brasil cria a Agência Espacial Brasileira em 1960. Sempre com pouquíssimos recursos humanos e verbas, mas teimosamente sinalizando uma importante opção estratégica do Estado - assim como fez também com o desenvolvimento da tecnologia nuclear, outra marca indelével dos anos 60.
Pois embora estas duas frentes tenham sido parte ainda de governos democráticos, tanto o programa espacial quanto a tecnologia nuclear ganharam impulso a partir da liderança das Forças Armadas. A partir do Golpe de Estado de 1964, o desenvolvimento destes pólos de afirmação do poderio técnico-científico do país esteve principalmente a reboque de interesses militares e ideológicos. Estavam até dentro de um projeto expansionista megalômano e nada inocente: "O Brasil Potência". E, obviamente, com clara opção de alinhamento ao "lado americano da corrida".
Mas o que acontece neste início de século 21? Um astronauta brasileiro, por coincidência um militar, finalmente vai ao espaço em uma nave dos inimigos ideológicos de outrora! E mais: sob a administração federal liderada por um partido de esquerda, o Partido dos Trabalhadores, criado por sindicalistas, religiosos e intelectuais perseguidos e torturados pelos militares, durante os 20 anos de ditadura.
Alguém poderá dizer que eram outros tempos, que isso não tem mais nada a ver. O Muro de Berlim - símbolo do maniqueísmo ideológico -, caiu, o próprio "império do mal" implodiu, estamos em plena era de globalização e decadência de grandes visões de mundo excludentes. Temos a liderança unipolar dos americanos, ainda que sob o desafio insidioso do terrorismo em escala internacional. Sim, não nego que estes bons argumentos, que são até mais do que isso, são fatos. Mas os fatos trazem causas por trás de si e podem - e devem - ser interpretados.
Marcos Pontes ficou de 1998 a 2005 em treinamento na Nasa - a famosa agência espacial americana. Começou, então, durante a administração federal do "tucano" Fernando Henrique Cardoso - outro opositor da ditadura, mais moderado. Filho de general, inclusive. Lula foi eleito e assumiu a Presidência em 2003 e houve o trágico acidente com o ônibus espacial Columbia logo a seguir. E desde então, os russos passaram a comandar todas as viagens de suprimentos e tripulações para a Estação.
É apenas coincidência que o astronauta brasileiro chegue ao espaço sob um governo de esquerda? Isso porque o fato do PT estar no poder pode ter aproximado os entendimentos do governo brasileiro com o russo. Afinal, boa parte dos petistas era simpático à causa socialista. Alguém poderá dizer que o governo russo atual não tem nada do regime soviético. Em termos econômicos e institucionais não, mas o governo de Vladimir Putin tem uma clara feição autocrática e centralizadora à moda da prática soviética anterior. Isso sem falar que Putin foi o chefe da KGB, ainda nos estertores do finado regime dos sovietes.
Se Marcos Pontes não subisse agora, talvez não subisse mais. Porque o Brasil não vem cumprindo os prazos para a construção de equipamentos a serem enviados à Estação Espacial, conforme consta em seu contrato de adesão à sociedade dos países participantes. Ou então, se cumprisse a sua parte, teríamos de esperar até 2009 ou 2010 para realizarmos este sonho espacial.
Não é sem sentido defender que o militar Pontes subiu numa nave russa Soyuz - uma das jóias da tecnologia espacial soviética -, por causa das antigas afinidades ideológicas do atual presidente e seu partido com a Rússia, que herdou a maior parte da estrutura do que restou do antigo império socialista.
Se quiserem mais uma pitada simbólica: por incrível coincidência, na noite da subida de Marcos Pontes onde estava o presidente Lula? Na embaixada da China, a outra potência socialista de um tempo nem tão distante assim.
O que pensariam os militares linha-dura do período autoritário (Costa e Silva, Médici, Frota) se soubessem que um piloto da Força Aérea iria ao espaço no início do século 21 numa nave dos "comunas"? De fato, "a vida dá muitas voltas", "a Terra é redonda", e "as verdades nunca são absolutas". Sentenças do senso comum, é verdade.
Em todo caso, é importante ter a História sempre em mente, pois as afinidades e origens, mesmo que distantes e não-óbvias, podem vir a se manifestar em determinado contexto e situação. Assim sendo, torna-se igualmente importante adotarmos uma perspectiva contemporânea pluralista, destituída de preconceitos, e principalmente, no caso, do ponto de vista político-ideológico, cujo cenário anterior foi dos mais radicais, mas com efeitos ainda discerníveis. Marcos Pontes e todos aqueles que vêem em sua missão efeitos positivos para a Ciência e a Educação brasileira num futuro próximo, agradecem.
Marcello Simão Branco, Terra Magazine
