quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

(In) satisfação [NOVEMBRO/2006]

Agora vai ficar meio chato escrever, talvez eu até nem fale tudo o que pretendia e tinha na cabeça; agora que a cabeça esfriou e consegui pensar em outras coisas, não tenho muito o que comentar -- ainda bem, pois é isso que eu deveria fazer.
A irritação não é de hoje. Sempre reclamei muito dessa capacidade -- ou tendência nata, como preferir -- que o serafinense em geral tem de falar da vida alheia. Nas primeiras preocupações com meu papel na sociedade, lá pelo início da adolescência, isso foi um motivo pra perder muitas horas reclamando sozinho. Mas eu me acostumei e, com o tempo, aprendi a ser como outras grandes pessoas que conheço e não dar bola.
Nos últimos dias, porém, percebi como as coisas são lamentáveis aqui neste buraco.
Nada passa despercebido. Você é muito fazido porque sai andando na rua com fones no ouvido, escutando o que você gosta. Caso você tenha ido bem no ENEM, é um CDF e, além disso, é um convencido. Se o seu forte é ser discreto, bom, então você não pega ninguém e volta aquela história do CDF que nunca faz nada -- o "santinho". Competência acaba caindo no esquecimento, a palavra usada é "metido". Você ouve de tudo, então na verdade, tu gosta só de porcaria.
As pessoas são tão simpáticas, pedem conselhos, dão elogios, fazem convites; são falsas, se aproximam até que terem uma nova fofoca pra soltar por aí, fazem jogo duplo. Mas não esqueça: você pode contar com tais seres humanos, quando eles estiverem precisando de alguma coisa. Claro que existem os hipócritas que cumprimentam os amigos pra te lembrar que você não é. Aqueles mesmos que conseguem ser gente fina, mas que não sabem que todo mundo sabe que não vale a pena manter uma amizade com tais.
Então num sábado você está tão feliz e sai na chuva com algumas das pessoas que tu mais preza nessa vida. E, ao mesmo tempo, você vê olhares maldosos de quem está falando mal mesmo. Até dá pra ouvir "dá uma olhada!?", "que fiasquentos", "será que não conhecem um guarda-chuva?". Realmente, você não acha uma coisa extremamente feia tomar um banho de chuva no sábado à noite? E dar risadas então! Mostrar felicidade é querer parar na cadeia.
Não visto roupas caras de quem preza aparências. Não sou de onda hip-hop -- mano, não tenho boné pro lado nem calças super-largas. Não curto rock, cabelo comprido, camisetas negras, atitudes racistas. Não preciso gastar minha grana com caixas de cerveja no final de semana. Não me sinto sozinho se não fico com gurias em festas. Não olho pela janela para ter o que comentar no domingo de manhã; nem fofoco pelo telefone.
Enquanto você (que é da galera, tem milhares de pessoas pra chamar de amigo, sai e volta a hora que quer) fica pensando o quanto ridículo é isto que você está lendo e quão idiota eu sou, eu estou escrevendo a minha história sem opiniões alheias, sem saber que você está aí. Estou vivendo a minha vida sem pensar no que as pessoas podem dizer -- mas com todo o respeito --, e aproveitando a felicidade que conquisto a cada dia.