Um homem foi condenado a morte por um crime que não havia cometido. Havia cometido outros em sua vida, mas não aquele. Assim mesmo foi decapitado, e sua cabeça pendurada pelos cabelos acima da porta da sua casa, para que todos soubessem o destino que aguardava aqueles considerados culpados pelo rei.
As chuvas haviam-se atrasado mais que de costume. Abrasava. O sol já surgia incendiando as primeiras horas do dia, e continuava escaldante quando a noite já deveria ter chegado. Um sopro de fornalha embalava a cabeça lentamente.
E nesse sopro, e nesse sol, a cabeça do homem aos poucos secava. Não como um fruto, que amadurece por dentro com seu sumo, mas como um couro, que se enxuga por igual. E, secando, encolhia a pele sobre os ossos, fazia-se o rosto mais magro, entreabriam-se os lábios antes fechados. Os dentes demoraram um pouco a aparecer, mas logo foi como se aquela cabeça estivesse a rir para o mundo.
Aconteceu que naquela rua passasse o carrasco. E vendo a cabeça sobre a porta surpreendeu-se. Pois ali estava o homem que havia decapitado não fazia muito tempo. E ria.
- Que magnífico carrasco sou eu - pensou deliciado. - Tamanha foi a precisão com que separei essa cabeça do seu corpo, que o homem nem se deu conta, e sentindo, talvez, um arrepio de cócegas no pescoço, riu.
Na verdade, o carrasco havia sido até então homem de poucos cuidados que executava seu trabalho sem convicção e sem capricho. O machado que utilizava há muito havia perdido o fio, o cabo era áspero, e ele o manejava apenas para livrar-se da tarefa, sem pensar na qualidade do serviço ou em poupar sofrimento a quem, ajoelhado, esperava a lâmina.
Mas voltando para casa aquela noite, inflado de orgulho, relatou à família o fato que punha em outra luz o seu trabalho. E terminado o jantar, levantou-se para ir afiar o machado.
Desde o dia da execução, a esposa, do homem entrava em casa de cabeça baixa, olhos postos no chão, para não ver o que sobrava daquele com quem durante tantos anos havia compartilhado a cama. Mas uma tarde, acompanhando o grito de uma ave, olhou para cima. E, como se a esperasse, lá estava o claro riso do marido.
- Que má esposa fui eu! - lamentou-se a mulher, refugiando-se na escuridão protetora da casa. - Ranzinza e impaciente, mas reclamei do que vivi ao seu lado. Fui lente azedo em sua boca, sem jamais tratá-lo com o carinho devido a um marido. E agora ele ri, para fazer-me saber que melhor estar na eternidade, do que comigo.
Assim dizia, e assim havia sido. Porque na vida era dura e os afazeres áridos, esquecera de ver as coisas boas que entremeavam seu cotidiano. E mesmo agora, ao levantar a cabeça atrás do grito da ave, não o havia feito para admirá-la, mas para amaldiçoá-la por defecar nas suas roupas estendidas.
Como se o marido a tivesse mordido com seus brancos dentes, cravou-se na alma da mulher a lembrança daquele riso, e abriram-se seus olhos para as delicadezas até então ignoradas.
Acendendo a lamparina ao escurecer, a filha do homem disse uma noite para a mãe:
- Meu pai riu para mim.
E mais não disse, porque o que lhe ia no pensamento era tão precioso que só a ela cabia. Secreta, latejava nela a certeza de que, ao passar para o outro lado da vida, o pai havia finalmente percebido o quanto ela era doce e valente. Seu riso lhe dizia agora que ele não mais lamentava não ter tido um filho varão, mas exibia ao mundo sua alegria por ter tido uma filha a enriquecer-lhe a vida.
As primeiras nuvens anunciando a chuva acavalavam-se no horizonte, quando veio a passar por aquela rua o autor do crime pelo qual o homem fora condenado. E olhando para o alto, viu a cabeça que havia rolado sob o machado em lugar da sua. O sorriso do outro o feriu como lâmina.
- Com que então - murmurou em silêncios - ele, que foi vítima, está feliz e risonho debaixo do sol, enquanto eu, responsável pela sua desgraça, vivo afundando na escuridão da culpa.
Ao tentar fugir de um crime, cometera outro por omissão. E desde então, o peso de ambos o esmagava.
Pensando no riso que ele próprio viria a ter, o criminoso foi entregar-se à justiça.
As nuvens fecharam-se como granito diante do sol, e toda a água retida naqueles meses desabou na escuridão. Entregue ao vento, a cabeça pendente dançou de um lado a outro, sacudiu-se na ponta da sua crina, abriu a boca em último esgar. Até desabar, num estalar de ossos desfeitos, que a trovoada encobriu.
De Marina Colasanti, no livro 23 Histórias de um Viajante. São Paulo, Global. 2005.
